Caminhando Sobre Brasas

Recentemente o consagrado motivador Anthony Robbins, também confundido como Trainer em PNL, se meteu numa curiosa e dolorosa confusão. Ao realizar um dos seus habituais e gigantescos treinos de autoajuda, desta vez em Dallas, no Texas, em 24/06/2016, ao promover o seu tradicional rito de caminhar sobre brasas, provocou sérias queimaduras em pelo menos 30 participantes.

Tal foi a gravidade que o corpo de bombeiros de Dallas foi acionado, assim como a polícia local e dai decorreram processos por lesões corporais. Não foi a primeira vez que isso acontece com este profissional.  Na cidade de San Jose, CA, em 2012, algo parecido ocorreu. Diversas pessoas sofreram sérias queimaduras.

Aqui no Brasil, existem vários grupos, entre eles, alguns que se intitulam escolas, institutos ou até “congressos” de PNL, que usam e promovem o uso deste tipo de ritual como ferramenta de “auto conhecimento”, “evolução” ou “empoderamento”, seja lá o que se entenda por isso. Alguns até dizem ser “os únicos autorizados pelo Richard Bandler” para o ensino da PNL.

Um grupo brasileiro realizou tal tipo de procedimento durante um treinamento empresarial e resultou queimaduras de segundo grau em 30 pessoas (mesmo número acima!) e diversos processos por lesão corporal, com a devida ida do “facilitador” a uma delegacia de polícia e competente registro de ocorrência mais o processo legal decorrente. Isso tudo bem aqui no Brasil, na cidade de Campinas, em 18 de setembro de 2006. Há 10 anos, portanto.

Vamos por partes. Primeiro, minha opinião sobres estes ritos que nada mais são do que metáforas experimentadas pelos participantes com um determinado fim. Tais ritos fazem parte de uma série de outras experiências bem populares: rafting, arborismo, gincanas, psicodramas, quebra de madeira, malabarismo, técnicas gestálticas, catarses, renascimento, regressão, hipnose de palco etc.

Tais técnicas ou experiências estruturadas fazem parte de um extenso repertório que podem ser usadas, quando com os devidos cuidados e ecologia para um determinado fim específico. Não se restringem e não são restritas aos praticantes de PNL. Ao contrário, foram aproveitadas em treinos de PNL, para dar ênfase ou impacto em determinado processo. Não são e nem nunca foram parte do ensino da PNL.

A bem da verdade, os criadores da PNL (Bandler, Grinder e outros) não usaram e até se colocavam contrários ao uso destes tipos de processos. Pessoalmente ouvi da boca do próprio Richard Bandler a frase: “Em PNL, ensinamos que, quando o praticante se defronta com um caminho com brasas e outro sem, o melhor caminho é o último.” Para Bandler não faz sentido ensinar um ser humano que para que ele seja mais inteligente deve caminhar sobre brasas ou algo equivalente. O cérebro humano é capaz de aprender muito e melhor sem que a pessoa precise se colocar em risco físico de qualquer espécie.

Então porque alguns praticantes de PNL ainda usam este tipo de processo? Resposta: marketing. É popular. Dá repercussão, é muito celebrado por mentes mais simples que se rejubilam com qualquer proeza, por menor que seja, pelo simples fato de fazerem algo novo, desafiador e especialmente em grupo.

Na verdade, o verdadeiro desafio é a mudança interna. Caminhar em brasas até um macaco amestrado consegue. Difícil é mudar de conduta, de escolhas, de vida, de carreira, de leituras e a real e corajosa busca de viver sua vida colocando em risco não suas solas dos pés e sim seus resultados, sua segurança da “zona de conforto”, seus velhos hábitos.

Para isso precisa caminhar sobre brasas? Não, de forma alguma. Aliás, na minha opinião, trata-se de uma forma muito primitiva (burra) de se aprender algo. Confio na inteligência humana para aprender de forma mais elegante e mais segura usando nosso melhor equipamento: o cérebro. Por último, quem gosta de caminhar em brasas que siga fazendo, é questão de escolha e preferência pessoal, só por favor não chame isso de aprender/ensinar PNL. Chame do verdadeiro nome para não fazer confusão: técnica de impacto para autoajuda. E assuma a responsabilidade pelo que fizer.

Para aprender PNL, você não precisa ficar preso numa sala num final de semana, não precisa de retiros, jejuns, não precisa que te joguem água gelada no rosto, não precisa que te coloquem numa situação de risco ou potencialmente humilhante. Estes são jogos gestálticos bem antigos (e antiquados), nada mais. Seus resultados costumam ser passageiros – fogo de palha. Para se aprender PNL e obter resultados duradouros você precisa de somente três coisas: 1. Querer; 2. Saber Como; 3. Dar-se a Chance.

1 Comentário

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    Mestre!

    Agradeço seu artigo, comentário e posicionamento certeiro, o qual compartilho!

    um abração
    Ricardo Lemos

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