Diário de Um Meia-Boca

Ser um meia-boca até que não é ruim… nem bom. As pessoas não nos entendem. A gente leva uma vidinha, passa o tempo, se distrai. Por exemplo, hoje acordei e tomei um café da manhã bem meia-boca, saí e fui trabalhar.

Meu trabalho é um saco e fico ali remando, enganando e me fazendo de útil. Até porque é emprego público, tipo cargo de confiança que um conhecido me arrumou. Não gosto dele mas ele também não gosta de mim, zero a zero. A ideia é fazer as coisas bem mais ou menos porque senão arrumo confusão com os colegas, a maioria é meia-boca que nem eu.

Saio do serviço e vou estudar. Sim, sou estudante, claro, de um curso meia-boca, tipo estudo a distância, desses que a gente entrega um trabalhinho do tipo copiar e colar. E deu, diploma na gaveta. Curriculum bonitão.

Também tô frequentando um curso de desenvolvimento pessoal porque eu acho que preciso mudar a minha vida. Ser meia-boca pode estar me limitando, diminuindo o meu potencial como ser humano, sei lá, as vezes eu fico meio encucado. Ai encontrei um cara, amigão meu, que se formou em Coaching de Vida. É que ele fez um curso, meia-boca é claro, de como transformar a vida das pessoas. Se bem que a dele ele ainda não conseguiu mudar muito.

Ele foi num seminário de final de semana onde colocavam o cara no meio de uma sala e ficavam xingando o cara até ele se desesperar. Ai se alguém queria sair, os caras não deixavam, as vezes jogavam água na cara da pessoa, coisa bem bizarra. Ai, falavam um montão de coisas e depois faziam o cara caminhar sobre brasas. Ai o cara saia mudado. Vida nova. Depois ele frequentou um baita curso de uns cinco dias, tipo completo mesmo, onde aprendeu a mudar a vida de todo mundo, o tal do Coaching de Vida.

Pois este cara me convenceu a fazer umas sessões com ele. Ai eu aprendi um monte de coisas pra mudar minha vida. Me dei conta de um monte de coisas meia-boca comigo. Por exemplo, tenho uma namorada, meia-boca, quebra o galho. Nem sei porque ela esta comigo. Para ficar comigo não deve regular bem da cabeça. Tenho também uns amigos, uma parceria bem meia-boca. Os caras adoram comer churrasco e o que pintar na frente, beber tudo e fazer festa. Mas também tem gente com interesse mais profundo…tipo esquemas táticos de futebol, manja.

Por exemplo, eu gosto de ler, sou muito curioso. Leio muito o que os caras postam no Facebook, no Tweeter. No WhatsApp é meio superficial pro meu gosto, respeito quem acho o contrário. Sou tipo fanático pelos lances do Youtube, tipo aqueles que falam do fim do mundo e da conspiração dos iluminati, do Armagedon e os ETs lagartos e coisa e tal. Tem também uns caras que postam um monte de dicas sobre doenças impressionantes que as pessoas tem e não sabem. E tem os tratamentos que ninguém manja. Uns comprimidos que só se consegue pela internet, umas plantas estranhas. Tem uma dieta do Neandertal que é o máximo. Cara, a informação tá toda ali. Na mão. Meia-boca, é verdade, mas bem fácil de pegar.

Se eu penso em morrer? Pô, cara, não tô nem ai. O que pintar, pintou. Por mim podem fazer uma cerimônia meia-boca, me colocar num caixãozinho qualquer, até porque não faz nenhuma diferença, né?

E na minha lápide podem escrever: “Aqui jaz um meia-boca, não fez quase nada, não aprendeu quase nada e não foi ninguém que valesse a pena conhecer…”

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