Um Caminho Diferente 2010 – Parte 1

Éramos um grupo de 24 peregrinos. Esse é o nome que se leva quando se propõe a caminhar o Caminho de Santiago da Compostela, na Espanha. Organizei um grupo de amigos, alunos, clientes e agregados para uma nova aventura. Já fizemos muitas outras aventuras por muitos lugares do mundo. Sempre em busca de conhecimento e crescimento com muita diversão. Pois desta vez parecia que a coisa seria diferente. E foi.

Primeira noite, antes de nos metermos no Caminho, ficamos na cidadezinha de Roncesvalles, nos Pirineus Espanhóis. Nos hospedamos num antigo mosteiro ao lado da igrejinha local, agora transformado num hotel, num bom hotel. Antes da missa, recebemos nosso “equipamento” básico de Peregrinos: Um cajado de avellana (a árvore das avelãs mesmo), madeira muito especial e própria para um bom cajado. Nem eu sabia a imensa utilidade de um bom cajado. Quero meu cajado junto de mim para sempre! Amigos, creiam-me, um cajado faz toda a diferença no Caminho. Depois recebemos a Vieira – uma concha grande e larga – marcada com a Cruz dos Templários, símbolo dos peregrinos e marca constante no Caminho – a presença dos Templários se estabelece desde o início e se justifica todo o tempo. Para arrematar, assistir a missa onde o grupo é abençoado como grupo e individualmente para a nobre missão é um ritual de passagem que nos remete para outro tempo e espaço.

O mais interessante, no entanto, não estava na igreja, no padre, na benção. Nem mesmo no “equipamento” recebido. Estava na expectativa das pessoas. Nos seu temores, suas esperanças, sua ansiedade. Será que seriamos capazes de agüentar o tranco? Seriam cerca de 30 km por dia por quatro dias – sim fizemos apenas uma pequena parte do Caminho. Mesmo assim, já dava para assustar. Preparativos. Dicas. Ouvir a experiência dos que já passaram por aquilo. Tudo era válido. Nada diminuía o medo do desconhecido. O medo não só da condição física levada a um extremo inusitado. O medo de ficar consigo mesmo por 6 a 8 horas por dia caminhando em trilhas desconhecidas, num país desconhecido, sem os telefonemas, sem a internet, sem TV a cabo, só com a própria cabeça…

Mas como disse antes, este grupo era diferente e diferente se estabelecia. Desde o início ficou claro que a experiência seria uma parte individual mas uma outra importante parte coletiva. Portanto, não ficaríamos sós. Ficaríamos uns com os outros. Descobriríamos o que isso resultaria. As lições do Caminho estavam ali, na nossa frente. Era como se o tempo tivesse mudado seu ritmo e agora batia muito mais lento. A vida estava a espera…

No dia seguinte acordamos tarde para peregrinos – as 8 horas – para sairmos ao redor das 10 horas. Era uma manhã ensolarada, um dia magnífico, fresco e agradável para um passeio, mas…para uma Caminhada, será que também seria? Todos de cajados em punho, logo o grupo recebeu a mais importante dica: cuidem os sinais do caminho. Eles sempre estão ali, só que as vezes é preciso prestar atenção, podem estar numa pedra, numa árvore, num canto qualquer. Se perder os sinais pode-se errar o caminho. Isso significa andar sem necessidade o que é simplesmente catastrófico naquelas condições. Nosso objetivo: Zubiri, a cerca de 28 km dali, subindo e descendo morros, entrando em matas, caminhando ao sol, chuva ou qualquer intempérie. Lá vamos nós, valentes e esperançosos peregrinos. Lá vamos nós para descobrir porque afinal tanta gente se mobiliza para fazer este tipo de “aventura”.

Dr. Nelson Spritzer

LEIA A SEGUNDA PARTE DO RELATO.

 

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